#savemarinajoyce desafia sanidade das pessoas na internet

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#savemarinajoyce desafia sanidade das pessoas na internet

A última semana será lembrada por um dos episódios mais marcantes da história das redes sociais. O suposto sequestro da Youtuber britânica Marina Joyce envolveu milhões de pessoas ao redor do mundo em torno de uma investigação virtual. O episódio mostra que o efeito viral na web pode ser avassalador quando as pessoas realmente se engajam naquilo. Por outro lado, o caso cria um sinal de alerta para o efeito perigoso do compartilhamento massivo de conteúdos não verificados.

Entenda o caso

Na última terça-feira, fãs da youtuber inglesa Marina Joyce, começaram a observar sinais estranhos em seus vídeos recentes. Internautas apontavam que a jovem, especializada em dicas de moda e beleza, parecia distante e menos alegre do que de costume. Isso fez com que milhares de pessoas que nem sabiam da existência de Marina passassem a se interessar pelo caso.

Logo, a internet se viu inundada por detetives virtuais que começaram a enxergar evidências que mostravam “algo de estranho” em Marina Joyce. Machucados em seus braços, uma espingarda e supostas grades em seu quarto foram alguns dos pontos observados pelas pessoas. Tweets recentes também foram amplamente analisados em busca de pistas que pudessem elucidar o caso. No entanto, o que fez o caso explodir foi um pedido de ajuda no vídeo mais recente da jovem. Fãs observaram que ela sussurra “Help me” em certo ponto.

As estranhas pistas levaram milhares de pessoas a concluir que Marina estava sendo mantida em cárcere privado, possivelmente por seu namorado. Não demorou muito para o assunto se tornar um dos mais comentados da internet, acompanhado da hashtag #savemarinajoyce. Neste meio tempo, já havia um tweet da polícia londrina confirmando que havia visitado Marina Joyce e que estava tudo bem com ela. Mas pouca gente deu importância para este fato.

No dia seguinte, o caso foi solucionado com vídeos da própria Marina, que concedeu entrevistas e se mostrou surpresa com a dimensão que o caso tomou. Ela viu também o lado positivo de multiplicar o número de fãs em suas redes sociais literalmente do dia para a noite. Muitos viram a reação de Marina como descaso e passaram a criticá-la por isso.

Episódio de Black Mirror?

À medida que as pessoas mergulhavam na missão de salvar Marina Joyce, o caso tomava a forma de um episódio da série de ficção científica Black Mirror. A produção – também britânica – faz severas críticas à sociedade ultraconectada em que vivemos. Os episódios contam diferentes histórias que mostram como a tecnologia pode nos fazer reféns de uma hora para outra. A série aponta para um futuro nebuloso em que inovações excessivas podem afetar as relações humanas e interferir até mesmo em sua sanidade.

Alguma semelhança?

O caso #savemarinajoyce passa longe de alguns extremos vistos em Black Mirror, mas não é exagero dizer que a youtuber britânica poderia muito bem estrelar um episódio da série. O ponto fundamental a ser analisado é como internet e redes sociais foram capazes de colocar tantas pessoas em torno de uma causa que essencialmente virtual. Uma sequência de suposições criou um exército que se viu em uma cruzada contra um inimigo que não existia no mundo real.

O último capítulo de Black Mirror foi exibido em 2014. A terceira temporada da série, agora produzida pelo Netflix, estreia no dia 21 de outubro. Alguns internautas chegaram a suspeitar que o caso de Marina Joyce pudesse ser uma grande jogada de marketing para o relançamento de Black Mirror, mas isso não foi confirmado (nem desmentido).

Existe um jeito certo de usar redes sociais?

O caso da youtuber ganhou uma proporção bastante significativa, por isso uma reflexão se faz necessária. O grau de tensão e angústia que tomou conta das pessoas é preocupante, pois houve uma perda de controle que gerou histeria coletiva. Uma minoria de vozes mais céticas tentou argumentar que a polícia londrina havia visitado Marina e confirmado estar tudo bem. Estas pessoas foram vistas como insensíveis ou mesmo ingênuas por não se darem conta do “grande perigo” ao qual a estrela inglesa estava submetida.

Com o caso encerrado, é preciso que todas as pessoas parem e pensem na forma como se relacionam com as redes sociais. Um boato que traz alguma afirmação séria e alarmante como foi este caso deve ser amplamente verificado antes de ser compartilhado. Apertar o botão share ou retweet envolve responsabilidade, mas muita gente ainda não faz a checagem da informação que compartilha.

Foi este efeito dominó que fez uma caçada virtual tomar uma dimensão impensável.

É muito difícil dizer se existe um jeito mais “correto” de utilizar redes sociais, mas o compartilhamento de informações não verificadas contribui para o aparecimento de casos como o de Marina Joyce.

Alguém pode dizer que a internet é livre e cada um tem todo o direito de propagar o conteúdo que tiver vontade. Tudo bem, mas neste caso será necessário arcar com as consequências. Se a maior parte das pessoas adotar a linha do compartilhamento compulsivo, a tendência é que as próximas Marinas Joyces apareçam com muito mais rapidez.

Copo meio cheio

Está bem claro que o recente episódio da youtuber britânica deve ser objeto de reflexão, mas a mobilização das pessoas em torno desta causa tem um aspecto positivo. A preocupação de quem se envolveu com a investigação virtual foi sincera e mostra como o ser humano tem a capacidade de demonstrar empatia em casos como esse. Milhares de pessoas que nem sabiam quem era Marina Joyce se envolveram em busca de novas pistas e mandavam boas vibrações para que a jovem saísse da situação de perigo em que supostamente se encontrava.

Se formos bem ranzinzas, podemos dizer que este é mais um exemplo do que se chama pejorativamente de “ativismo de sofá” (quando as pessoas contribuem com likes ou compartilhamentos em função de uma causa nobre). Pode até ser o caso, mas a comoção em torno do #savemarinajoyce teve um caráter um pouco diferente e fez com que as pessoas se envolvessem por horas porque acreditavam que aquilo era a coisa certa a se fazer.

(Des)conectados

O mundo está cada vez mais conectado e a tendência é que isso siga crescendo em alta velocidade. A tela do smartphone é nossa paisagem diária e nos acostumamos a isso. Mas até que ponto estamos no controle dessa tecnologia? Até que ponto somos conscientes dos rumos que a tecnologia está tomando?

Somos seres sociais ultraconectados, mas o caso de Marina Joyce acende um sinal amarelo de que a conexão virtual exagerada pode acabar nos desconectando do mundo real.

No episódio, que pode entrar para a história da internet como Marina Joyce Freakout, o sequestro não foi da YouTuber, mas dos milhões de internautas que se envolveram em uma investigação que só existiu porque eles acreditaram naquilo.

Uma dose de ceticismo na internet é bem-vinda em um mundo cada vez mais definido por pixels do que por átomos.

 

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